
O sol levanta. A tempestade começa.
Gritos de impaciência, berros de irritação, um choro incessante de fome, tudo perfeitamente reunido pelas pessoas da casa para o mais puro ritual do caos diário. Tudo é incômodo.
Não há um mínimo de calma, um só resquício de tranquilidade para qualquer coisa que eu queira fazer.
As palavras não me saem da cabeça, mas se tento escrevê-las elas somem, de modo que eu só posso pensar, mas nenhuma letra colocar no papel.
Arrasto-me pelos cantos o dia todo, contando os segundos para a agonia acabar.
Tenho amor pelos meus progenitores, tenho consideração pelos demais filhos deles, afinal, são meu "contato com o meu passado", mas esses sentimentos são dirigidos a cada um individualmente e não para o conjunto.
A tarde vem preguiçosa e eu me pergunto o motivo pelo qual ela se arrasta tanto e reluta para não acabar.
Enfim a tarde vai, chega a noite. Hora do jantar.
A louca desordem continua, agora em ritmo de stress devido ao dia corrido e caótico. Um reclama de um lado, um chora de outro, um pede calma, outro sai grosseiramente da mesa como se não houvessem ainda inventado a educação.
O jantar desce para o estômago e o cansaço fica mais cansado ainda. Precisa-se de uma noite de sono.
Como se nada tivesse acontecido, "boa noites" são ouvidos de todos os lados. Cada um em seu quarto, recolhido em seu majestoso reino particular. Descansar finalmente!
Cessam os passos pela casa.
O silêncio cai como um manto suave em minhas costas, e me enche da mais plena paz.
Pego lápis e papel e começo a despejar minhas cismas.
A tempestade acabou.
Pelo menos pelas próximas oito horas.


